Blog do Abilio Diniz

Arquivo : janeiro 2015

Sr. Aidar: tome a decisão correta
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Abilio Diniz

Muitos dizem que os clubes de futebol não têm dono. Não concordo com tal afirmação.

Os clubes têm dono, sim. São eles os seus associados e os seus torcedores, cujo tamanho, interesse e capacidade de consumo definem o montante das receitas, em patrocínios, contratos de transmissão, rendas de bilheteria, venda de produtos licenciados etc., essenciais para sua existência e realização das suas atividades. Portanto, os grandes clubes de futebol têm alguns milhões de donos.

No caso do meu clube, o São Paulo FC, eu, associado e torcedor, sou um desses milhões de proprietários.

Ao longo das últimas décadas, tive a felicidade de presenciar a construção de uma imagem de credibilidade e excelência na gestão do meu Clube, fruto do trabalho de dirigentes que se destacavam pela discrição, fidalguia e competência, tendo essa fórmula sido coroada com inúmeros títulos de expressão nacional e internacional e reconhecimento de excelência, inclusive pelos rivais.

Com preocupação, vejo a imagem do São Paulo se depreciar rápida e significativamente nos últimos tempos.

O Presidente Carlos Miguel Aidar assumiu a gestão do Clube em abril de 2014, cercado de grande e positiva expectativa. Afinal, tratava-se de um Presidente que fizera ótima gestão à frente do São Paulo na década de 80, além de ter conseguido sucesso em sua profissão, como advogado, chegando inclusive à Presidência da OAB/SP.

Porém, em pouco tempo tudo mudou e mudou para muito pior. Instalou-se dentro do São Paulo um cenário jamais visto, um clima beligerante, temerário e inexplicável. O Sr. Aidar fez um ato inadmissível, partiu publicamente para o ataque e destruição do seu antecessor e principal apoiador em sua eleição; partiu do princípio que é preciso destruir a imagem do Presidente anterior para poder mandar com tranquilidade. Isto é uma sórdida técnica usada inclusive nos meios empresariais e que, normalmente, traz resultados desastrosos. Na minha vida como presidente e gestor, já vi esse filme em preto e branco e em cores e posso garantir que é horrível.

Nesse clima interno de intranquilidade, o Sr. Aidar, depois de confrontado a respeito, assumiu ter celebrado contrato de intermediação com sua namorada, pelo qual receberia 20% dos negócios que ela trouxesse ao clube. Por falta de mais conhecimentos, não vou entrar no mérito dessa questão, mas o Presidente de um clube como o São Paulo tem que assumir regras de compliance e administrar de acordo com as melhores práticas de governança corporativa.

No São Paulo, existem muitas questões a serem tratadas de acordo como eu enxergo o futebol moderno. Eventual separação do clube social do clube de futebol, novo modelo de gestão para ambos, integração do centro de treinamento de Cotia com o centro de treinamento dos profissionais, modernização ou não do estádio do Morumbi, entre tantas outras coisas. O Sr. Aidar fala nesses temas, porém, é preciso que eles sejam tratados abertamente com o Conselho Consultivo, Conselho Deliberativo e dado conhecimento a todos os associados e torcedores. Um presidente e um bom gestor precisa agir democraticamente e ouvir a todos.

E agora, o pior. Apesar deste clima de confronto e de instabilidade na direção do clube, no futebol as coisas ainda caminham bem. Fomos vice-campeões brasileiros em 2014 e temos pela frente boas perspectivas para disputar o campeonato paulista, a libertadores e o campeonato brasileiro. O clima é de tranquilidade. Porém, o Sr. Aidar, com o seu hábito de fazer cobranças públicas ao invés de resolver os problemas internamente, parte, agora, contra Muricy Ramalho, treinador consagrado com inúmeros serviços prestados ao São Paulo. Agindo assim, o Sr. Aidar desestabiliza o ambiente do futebol profissional, carro chefe da Instituição, no qual paz e tranquilidade para trabalhar são elementos fundamentais. Quem conhece gestão de pessoas sabe que cobranças públicas são contraproducentes. O gestor deve ter acesso irrestrito aos seus comandados e, em privado, apontar as metas que pretende atingir e exigir os resultados esperados.

Assim, por ser um dos milhões de donos do São Paulo, tenho o direito legítimo de me preocupar com os graves danos causados ao ativo mais importante do MEU Clube, sua imagem, sua marca, sua História de credibilidade.

Tenho uma vida longa e bem conhecida por todos, sou um seguidor da lei e da ordem, não apoio golpes ou tramas ilícitas. Por esses motivos, peço ao Sr. Aidar que reflita: o Senhor não está à altura de presidir o São Paulo. Modifique completamente a sua gestão ou tome a decisão correta.


Chega de concentração
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Abilio Diniz

Depois do veto de Dilma à renegociação irresponsável das dívidas dos clubes, outra boa novidade no início do ano futebolístico: o técnico Muricy Ramalho liberou o time do São Paulo da concentração nesta pré-temporada e promete fazer o mesmo em pelo menos alguns jogos da temporada, como já fez em 2014. Espero que a medida seja logo adotada de forma permanente e por todas as equipes, acabando com mais um marco do atraso no nosso futebol.

Trancar jogadores em concentrações não deve ser uma regra, mas uma exceção, se necessária, para momentos especiais. Os times europeus, que praticam o melhor futebol do mundo, não usam esse expediente e focam seu treinamento mais nos aspectos táticos do que físicos do esporte.

Quando estive com o Neymar em Barcelona, no final do ano passado, fiquei surpreso em encontrá-lo em casa numa sexta-feira, véspera de jogo importante contra o Sevilla. Neymar não só dormiu em casa na véspera da partida, como, no dia seguinte, se apresentou só às 10 da manhã no clube para um “bobinho” e um aquecimento, voltando depois para casa e se reapresentando, já no estádio, às 18h30 para o jogo das 20h.

Jogador profissional é assim. Sabe o que deve e o que não deve fazer. E que se não fizer o que deve, prejudicará seu time e sua própria carreira. O futebol está cada dia mais competitivo. Não há mais espaço para abusos que comprometam o desempenho do atleta e do grupo.

Por isso é fundamental desenvolver no jogador a consciência da importância do que ele faz. Como são profissionais que atingem seu pico em idade ainda muito jovem, eles precisam aprender logo cedo a ter responsabilidade e passar confiança ao time e ao treinador. E os clubes, ao invés de trancafiá-los como crianças, devem investir na formação dos atletas não apenas como jogadores, mas como homens de bem e responsáveis.

A maioria dos jogadores no Brasil já tem essa consciência. Só falta agora acabar com o confinamento que os isola das famílias e dos amigos e atrapalha suas vidas desnecessariamente, além de gerar custos extras aos clubes com acomodação.

Como disse o Muricy: “A concentração já não está mais cabendo no futebol de hoje. Os jogadores têm de ser responsáveis por seus atos e têm a obrigação de responder com disciplina, cuidando da saúde. Eles têm contrato e não estão fazendo favor a ninguém, é obrigação. O grupo ganha com isso”.

Está muito claro que o futebol brasileiro precisa mudar. O veto de Dilma neste mês deu um choque de credibilidade a esse movimento coletivo de mudança. O fim da concentração vai na mesma direção.


Choque de credibilidade
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Abilio Diniz

Presidente Dilma, que bom que você vetou a lei que permitia enormes descontos e parcelamentos das dívidas dos clubes sem nenhum compromisso deles com uma boa gestão. Seu veto foi um presente para o futebol brasileiro e aponta para uma nova era num esporte tão importante para o nosso país.

Foi uma vitória do bom senso e do Bom Senso F.C. (o movimento dos jogadores criado em 2013 para reformar o futebol) contra a anacrônica bancada da bola, que aprovou em tempo recorde, no final do mandato legislativo, mais um salvo-conduto à má gestão dos nossos clubes.

A punição é um grande aprendizado, sem ela não existe boa gestão. Os gestores dos clubes devem ter responsabilidades e ser responsabilizados quando gastam mal o grande volume de dinheiro que movimentam. Só assim eles se sentirão obrigados a gerir bem e com mais transparência essas organizações. Um perdão fiscal como o aprovado no Congresso, inserido de última hora numa Medida Provisória sobre outro assunto, à revelia de um processo em curso de discussão entre jogadores, clubes e autoridades, seria uma forma de incentivar a continuidade da má gestão do futebol, não de combatê-la.

Fico muito feliz porque o veto presidencial reflete e revigora o desejo de mudança no nosso futebol. Por outro lado, a aprovação da medida pela Câmera e pelo Senado da forma como foi feita mostra que a briga vai ser dura.

A CBF, por exemplo, era contra o veto da presidente e a favor da nova lei. E ainda queria para si a função de criar e fiscalizar as normas que garantiriam o pagamento das dívidas e a boa gestão dos clubes. Mas, infelizmente, a entidade que administra o nosso futebol não mostrou competência para isso e até aqui foi mais parte do problema do que da solução. Por isso, eu acho que são os clubes, uma vez bem geridos e reestruturados, que devem cobrar a CBF, e não o contrário.

O esporte no século 21 traz grandes possibilidades de desenvolvimento social e econômico. Basta ver e aprender com o trabalho de ligas bem sucedidas como as do futebol europeu e as de basquete, beisebol e futebol americano nos EUA. Nosso potencial no futebol (e mesmo em outros esportes) é enorme, mas só se realizará com reformas e firmeza.

Como disse a nota da Presidência, explicando as razões do veto, é preciso formular uma proposta conjunta de todos os envolvidos para estimular a modernização do futebol no Brasil. Uma proposta, diz a nota, que passa pela “responsabilidade fiscal dos clubes e entidades, a transparência e o aprimoramento de sua gestão, bem como a efetividade dos direitos dos atletas”.

É isso aí. A medida vetada por Dilma corria no caminho oposto. Por isso a necessidade do veto. Agora é preciso concluir o processo de amplo diálogo já em curso e aprovar uma proposta que seja boa para todos, menos para aqueles que lucram com o descalabro do futebol no Brasil.

O veto da presidente Dilma revigora esse processo e lhe dá um choque de credibilidade. Como diz o Bom Senso, é preciso tornar o Brasil o verdadeiro país do futebol. E isso só virá com outra mentalidade, outras normas e outra gestão.


Volta das férias
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Abilio Diniz

O futebol está de férias. Mas se antigamente era comum ver jogadores curtindo esse período festivo de forma mais abusada, hoje eles estão mais conscientes de que precisam se cuidar para não perder muito tempo na volta aos treinamentos preparatórios para os campeonatos, a chamada pré-temporada.

No futebol brasileiro, os jogadores param de jogar a temporada muito tarde e recomeçam a jogar muito cedo. E, ao contrário do que se faz na Europa, que já na pré-temporada dá ênfase ao treino tático, aqui, na maioria das vezes, a ênfase é no treino físico, um erro que pode ter consequências negativas para o jogador e para o time ao longo de toda a temporada.

Se os jogadores se cuidam nas férias, eles não voltam despreparados no início do ano. Isso significa que todo o trabalho físico de pré-temporada pode ser comprimido e se pode entrar mais cedo com as sessões de treinamentos específicos de futebol, como os trabalhos técnicos e táticos com bola. E, como tenho escrito aqui, uma melhor preparação tática é o caminho para o futebol brasileiro retomar seu brilho e sua competitividade global.

Estudos do Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo (NAR), sob a direção de Irineu Loturco, examinaram as condições físicas dos jogadores de diferentes categorias – da base aos profissionais – ao longo de todo o ciclo anual do futebol. As conclusões apontam que é melhor iniciar o quanto antes trabalhos específicos para estimular as capacidades técnicas e táticas do jogador e que os trabalhos físicos de base feitos sem a bola acabam sendo muitas vezes desnecessários e prejudiciais.

Portanto, uma pré-temporada com treinamentos físicos longos e exaustivos não só não ajuda no desempenho do atleta, mas pode prejudicar seu desempenho na temporada. Para aqueles atletas que voltam das férias com sobrepeso ou outros problemas específicos, o melhor é fazer uma readaptação específica para eles de acordo com suas necessidades individuais.

O ideal mesmo, porém, é que o jogador se cuide nas férias. A boa condição física, tanto no nível dos atletas profissionais quanto no das pessoas comuns, deve ser uma meta permanente. Quem não tiver mantido a disciplina durante o período de descanso, que fique de castigo num treino separado.


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